domingo, 25 de agosto de 2013

...

Aos poucos ela ia entrando em colapso.
Sua mente a abandonava, enquanto cada lembrança esquecia-se dela.

Seu corpo, atormentado pelas suas memórias, desfalecia-se. Pedia perdão por erros que não foram cometidos. Clamava, em desespero, pela paz. O tormento que a impedia de ser. 

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Aos Poucos

A carta de socorro foi entregue. Aquele último grito inaudito. Abandonado, se foi. Escondido, nas asas de um sussurro. Atrás de cada palavra que lhe fugia pelas mãos. Escorregava por entre os dedos.
As palavras já não diziam, gritavam.
 A voz já não saia, engasgava-se nas próprias lágrimas.
Cada gesto gerava suspense. Ficava em suspenso.
Eram surdos e tolos.
As lágrimas não chegaram a cair.
O grito não chegou a ser ouvido.
A carta não chegou a ser lida.

O socorro não chegou. 

segunda-feira, 20 de maio de 2013

De Segundo a Segundo


  Quando o tempo não para, não há horas reservadas para discussões. As alegrias são passageiras e as tristezas ficam apenas na memória. Não há tempo para lamentações.
  O tempo não para, mas por um segundo os olhos piscam. A noite e o dia em um piscar de olhos. A noite e a noite. A noite e a madrugada. A noite e a manhã. A noite e a tarde.
  Quando o tempo não para, é custoso a passar. O relógio parou. O tempo não. O homem não. O homem parou. 
  Quando o tempo não para, tudo vira arte, o borrão de um pincelada no papel. Mas o tempo não para, e não há tempo para apreciá-la.
  O tempo não para, ele anda, ele corre, ele voa. Não temos tempo pra isso. Nao temos tempo praquilo. Não temos tempo pra nada. É pessoas que se vão, é saudade que se encontra, é trabalho mal feito, é noite mal dormida.
  O tempo não para nem para um cochilo, nem para um café. O tempo não tem horário de almoço.
  O tempo ficou exausto.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Breve

Com lágrimas, abraçaram-se. Com esse abraço, despediram-se.
Deram-se as costas, e caminharam em direções opostas.  

sábado, 30 de março de 2013

Desnecessário

Os pesadelos ressurgem.
Devagar, levam-me pelas mãos.
Abraçam-me.
Embalam-me.
Fazem-me dormir.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Instrumental


As palavras fugiram-lhe a mente. A melodia, agora, só, arranhava-lhe os ouvidos, sangrava-lhe a alma. Arrancava-lhe, a força, lágrimas sofridas.
Os risos da menina já não eram sinceros, não chegavam aos seus olhos. Foram expulsos pelas pequenas gotas salgadas.
Todos os dias, esperava que a chuva a acolhesse. Poderia esconder sua própria tempestade particular. Poderia fingir que estava bem. Estava tudo bem. Está tudo bem.
E ia seguindo a própria vida. Enganando a todos.
Enganando a si mesma.
Procurando palavras, resgatando-as.
Até que ousasse ouvir novamente. Até que ousasse sentir novamente.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Ponto, afinal.


  A cada eufemismo, a cada hipérbole, contribuímos com a gradação degenerada do nosso ser. Degradação constituinte. Cada i no seu pingo, ou cada pingo no seu i. Cada ponto com seu ponto, e eu fico sem ponto, afinal. Ponto final. 
  Cansei. Quero agora exclamações! Quero isso! Quero aquilo! Quero nada.
  As mazelas e lamentações. Ponto ponto ponto. 
  Voltamos a calmaria. Voltamos a por pingos nos is. Voltamos a sentir-nos inertes perante decisões que não foram tomadas. 
  Eu quero um ponto final. Eu quero um ponto, afinal.